Blockchain: Panorama e Perspectivas

Vivemos em um mundo onde cada vez mais interagimos cotidianamente como cidadãos, consumidores e colaboradores através de ambientes digitais.
Publicado por: Bruno Rossi
Publicado em:

Vivemos em um mundo onde cada vez mais interagimos cotidianamente como cidadãos, consumidores e colaboradores através de ambientes digitais. Quase que inevitavelmente, uma parte maior ou menor de nossas vidas, nos diferentes papéis que desempenhamos, está atrelada a transmissão de informações por estes meios, em especial, a Internet.

Em praticamente todas as interações que estabelecemos online são gerados dados diversos sobre quem somos, tanto pessoal quanto profissionalmente, tais como, preferências hábitos, locais que frequentamos, grupos profissionais que seguimos, bancos que utilizamos, histórico de compras, personalidades públicas que nos interessam, dentre outros.

Nos contextos de compra e venda de produtos e serviços, assim como operações financeiras diversas, tais interações devem ser necessariamente validadas por alguma autoridade ou entidade autorizada para tal, como bancos, empresas de cartão de crédito e pagamentos, instituições governamentais, entre outras. A necessidade de uma entidade validadora que confere confiabilidade às trocas realizadas online é uma característica da economia digital em seu estado atual. De fato, não se trata apenas de relações comerciais e financeiras, mas também simples operações como um provedor de serviços de e-mail nos dizendo que uma mensagem foi entregue, uma autoridade de certificação confirmando que determinado certificado digital é confiável, ou mesmo uma rede social como Facebook confirmando que nossos posts foram compartilhados apenas com nossos amigos.

Apesar de muitas vezes não nos apercebermos, realizamos uma série de trocas, financeiras ou não, no ambiente digital confiando em uma terceira entidade que garanta nossa segurança e privacidade. Trata-se na verdade de um equilíbrio mais vulnerável do que imaginamos.

Esta série de posts abordará o conceito, as aplicações, o potencial disruptivo e algumas das melhores práticas de implementações de projetos baseados na tecnologia de blockchain.

Afinal, o que é blockchain?

A tecnologia de blockchain se propõe a ser uma solução definitiva para que possamos realizar com segurança e confiança uma série de atividades online nos mais diversos contextos. Trata-se de uma forma de registrar e validar as operações que ocorrem digitalmente de forma segura e transparente. Na prática, seria como se cada operação carregasse consigo um livro-razão público, armazenado e validado por uma rede distribuída de computadores. As informações gravadas neste livro não podem ser alteradas ou apagadas, permanecendo como um registro perene. Tais informações podem referir-se à venda de um ativo, a assinatura de um contrato, uma transferência financeira, uma sequência de códigos genéticos (como abordaremos mais adiante nesta série de posts), entre outras inúmeras possibilidades de registros de trocas e operações realizadas em diferentes contextos. Esses registros podem ser verificados a qualquer momento sem que a privacidade do conteúdo (contrato, ativos, dados de uma transação, etc.) e das partes envolvidas seja violada.

A título de recuperarmos o conceito de livro razão, cumpre comentar que se trata de um registro baseado no método contábil de partidas dobradas. Este livro contém informações acerca da data da transação, a quantidade de bens e/ou valores transacionados, o saldo anterior, o valor do débito e do crédito, o saldo final e a natureza da transação (crédito ou débito). Em outros termos, o livro razão se presta a registrar todas as informações que dizem respeito aos envolvidos em uma operação, a data das alterações e sua natureza.

Com a tecnologia de blockchain cada operação é digitalmente assinada com o objetivo de garantir sua autenticidade, privacidade e inalterabilidade. Os novos registros são validados por uma infraestrutura de computadores e servidores, chamados de nós. Após esta validação os novos registros são integrados ao bloco de informações sobre aquela operação (um histórico, tal qual um livro razão). Os blocos de informação podem ser verificados a qualquer momento, pois cada nó possui cópias dos registros autenticados. Uma das tecnologias que viabilizam a blockchain é a já conhecida criptografia, juntamente com o conceito de banco de dados distribuído e o consenso, que ocorre mediante as checagens realizadas pelos nós da rede.

Quando uma nova operação é realizada, por exemplo, um contrato recebe uma nova assinatura ou tem uma de suas cláusulas alterada, parte dos nós de uma implementação de blockchain executa uma série de algoritmos e, basicamente, avalia e verifica o histórico do bloco de informações ao qual a operação se refere (nesse caso, um bloco de informações sobre aquele contrato), as identidades envolvidas e a integridade, autenticidade e validade do conteúdo, chegando assim ao consenso de que histórico e assinatura são válidos. Após essa verificação é dada a permissão para que a nova operação seja aceita e adicionada como um novo bloco à cadeia de informações referentes àquela operação (nesse exemplo, todas as informações referentes ao contrato, desde a sua primeira versão para assinatura). Caso qualquer um dos nós da rede envolvidos na verificação não reconheça a operação devido a alguma divergência ou inconsistência, tal registro (os dados da operação realizada) é negado e não é adicionado à cadeia de informações (ou seja, a sequência de blocos de registros, daí o termo “blockchain”).

O modelo de consenso permite que a blockchain funcione como uma rede de autenticação distribuída, o que resulta na independência de uma autoridade central para informar quais operações são válidas ou não, já que a própria rede é responsável por esta verificação e autenticação.

A independência de uma autoridade central para autenticação elimina a necessidade de câmaras de compensação, cartórios, bancos e outros agentes que têm como função validar e autenticar operações de diversos tipos. Dessa forma, permite redução de custos e maior velocidade na realização, verificação, definição e registro de operações. A assinatura e verificação digital por consenso é uma alternativa eficaz para a redução de fraudes e outras práticas criminosas que ocorrem atualmente no meio digital e físico.

No próximo post serão apresentadas algumas das aplicações atuais da tecnologia de blockchain em diferentes contextos e setores.